Apesar da escassez e do mau uso da verba, a criatividade e a vontade vêm garantindo a preservação do patrimônio cultural dos índios. Cada vez mais, os próprios índios vêm cuidando de suas escolas, principal espaço de preservação e disseminação dessa cultura. Hoje, temos 2.079 escolas indígenas no Brasil (dentro e fora de aldeias) e cerca de 7.000 professores. Nesse time de educadores, 85% deles são índios. Apesar disso, as escolas das aldeias só vão até a 4ª série e os adolescentes indígenas têm dificuldade de chegar ao ensino fundamental e médio.

A escassez de verba direcionada à educação indígena é apontada como uma das principais causas da má estrutura de ensino para esse povo. Mas tem quem já aponte outros motivos: “Se olharmos o Plano Plurianual do Governo Federal vamos ver que tem muito kayãba (dinheiro), mas de fato a burocracia nos impede de usar”, disse Agnaldo Pataxó, representante da Comissão Nacional de Educação Indígena no Fórum Estadual de Educação Indígena, e professor da Escola Estadual Caramuru Catarina Paraguaçu.

O Plano de Ação Presidente Amigo da Criança e do Adolescente prevê o aporte de R$1,9 milhão em apoio à formação de professores indígenas; produção de materiais didáticos específicos; investimentos em rede física e formação de técnicos. Para a merenda escolar especial para as escolas indígenas estão previstos investimentos de R$11,3 milhões. Além disso, temos ainda um montante de R$1,6 milhões de recursos do Projeto FUNDESCOLA em apoio à formação de professores indígenas.

A capacitação dos professores impacta diretamente no resultado nas salas de aula. “Acho que faltam mais professores capacitados para lidar com a questão indígena e essa é uma situação muito delicada. Há uma ligação muito forte entre educação e direitos. Se observarmos, por exemplo, o Estatuto da Criança e do Adolescente, logo nos perguntamos como ele será aplicado aos índios. Há coisas que para eles são culturais e para nós são crimes”, diz Amarildo Baesso - Subsecretario de Direitos Humanos.

Falta ensino médio e fundamental

Conversamos com alguns índios atendidos da ONG Thydêwá sobre este assunto. Perguntamos se eles estudavam e o que eles achavam da educação que recebiam nas escolas. “Nas escolas, tanto da cidade quanto da aldeia, o ensino é bom”, afirmou o grupo. Na aldeia de Rubens de Jesus, da comunidade Kiriri, localizada em Banzai-BA, existe ainda um dia na semana reservado somente para o aprendizado da cultura indígena, como aulas de dança, artesanato, reflorestamento e também aulas com ervas medicinais. “Os professores da comunidade dão muito valor à nossa cultura”, diz Rubens. Hoje, nas aldeias, a maioria dos professores é índio.

Rubens está cursando o primário em uma escola da sua aldeia. Ele diz que lá só há aulas da pré-escola até a quarta-série. A escola da cidade fica a 20 km da aldeia e os alunos chegam com muita dificuldade. Para dar continuidade aos seus estudos, o Governo do Estado da Bahia cedeu dois ônibus.

Além da dificuldade de acesso, os índios acham que o ensino da cidade grande é muito avançado comparado com o seu. “Se os índios tivessem mais acesso às escolas e o ensino das escolas das cidades não fossem tão mais avançados seria bem melhor”, diz Nhenety Korã, da comunidade Xucuru Kariri, de Alagoas. Ele considera importante ampliar o acesso à escola e qualificar o ensino nas aldeias para melhoria da educação indígena.