| 08 Agosto 2010
Publicado em: 18/07/2005
Por: Agadir Andrade, Ana Paula Ferreira, Augusto Nascimento, Paula Ferreira, Suellen França, Welber Rodrigues (Pernambuco)
Dificuldade de locomoção, espaço físico inadequado e banheiro não adaptado. Fizemos o monitoramento em três escolas da rede pública do Recife e Olinda e observamos vários problemas enfrentados pelas pessoas com deficiência, apesar do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garantir para eles atendimento educacional especializado.
No nosso planejamento para este ano, decidimos monitorar a área de Educação. Demos uma estudada no ECA e escolhemos observar na realidade como estava sendo aplicado o Artigo 54: “Atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino”, do Capítulo IV - Do Direito à Educação, à Cultura, ao Esporte e ao Lazer.
A partir da experiência vivida no Projeto Escola de Vídeo do Auçuba, decidimos visitar escolas nas quais já atuamos como monitores como a Escola Professor Mardônio de Andrade Lima Coelho, Escolas Reunidas Padre João Barbosa, ambas de Recife, e CAIC (Centro de Atendimento Integrado à Criança) Norma Coelho, de Olinda.
O CAIC de Olinda vem investindo na educação especial desde 2001. Durante esse período, já estudaram na escola mais de 100 estudantes. A escola atende alunos com deficiências física, motora e mental, em parceria com a FACHO (Faculdade de Ciências Humanas de Olinda). Os alunos que apresentam maior dificuldade têm acompanhamento psicológico. “No inicio, foi muito difícil o trabalho. Eles não tinham limites, achavam que podiam fazer tudo. Com muita conversa e trabalho invertemos isso e hoje o desempenho deles é ótimo”, disse Adriana Cunha, educadora.
No momento, há três turmas de educação especial, duas que atendem adolescentes e adultos e outra de ensino infantil. Ao todo, são 27 alunos com idade entre 6 e 31 anos. Três professores aplicam todas as disciplinas de forma lúdica, com jogos e dinâmicas. Os alunos também têm aulas de informática, música, passeios turísticos, participam de vários projetos, como o plantio de uma horta, e têm participação nas atividades festivas da escola, onde apresentam seus próprios trabalhos.
Já a estrutura física do CAIC deixa a desejar, pois os estudantes com deficiência têm limitações em circular pelos outros espaços deixando de interagir com os outros alunos. “O CAIC foi construído visando a integração geral de todos. Ele possui elevador, mas por falta de manutenção não o usamos. As salas da educação especial são todas na parte de baixo, onde há banheiro, cozinha, laboratório de informática, tudo”, relata Adriana.
Em relação à capacitação dos professores, eles participam de dois projetos: “Saúde na Escola - Continuando a Crescer”, financiado pelo Unicef, no qual recebem capacitação e livros para ajudar na sua formação; e o “Projeto Pacto à Diferença”, que visa promover a participação em seminários cujo foco é o respeito às diferenças.
A única na escola
Já na Escola Mardônio Coelho, tivemos uma grande supressa. Ela tem inúmeras salas e mais de 1300 alunos, mas quando fomos à direção e perguntamos quantos deles tinham deficiência, segundo a secretária, só existe uma aluna. “É muito difícil ir para a escola, pois eu me sinto diferente demais dos outros alunos.
Tem gente que trata a gente bem. Mas existem outros que nos tratam mal. Muitas vezes me chamam de aleijadinha. Mas também tem pessoas que me tratam tão bem que eu me sinto até envergonhada. Eu só quero me sentir igual, mas não deixam”, conta Ricassia Andrade.
Nesta escola, vimos que não tem uma sala específica para atender alunos com deficiência. O acesso é difícil, pois existem vários degraus e não existem rampas suficientes para os cadeirantes. Isso faz com que os alunos com deficiência procurem outras unidades escolares para estudar.
Nesta escola, vimos que não tem uma sala específica para atender alunos com deficiência. O acesso é difícil, pois existem vários degraus e não existem rampas suficientes para os cadeirantes. Isso faz com que os alunos com deficiência procurem outras unidades escolares para estudar.
A direção diz que tenta melhorar a escola para que possa dar uma boa qualidade de ensino e oportunidade a todos os alunos, sem distinção de cor, raça, deficiências, religião e etc. Para isso, vem tentando melhorar o espaço físico da escola, com rampas de acesso para o interior do prédio e banheiros mais adequados.
Para alguns alunos, a presença de colegas com deficiência chega a ser um estímulo. “Os alunos vêem as pessoas com deficiência física como quem têm muita força de vontade. Muitos dizem que se tivessem alguma deficiência não teriam tanta estímulo para estudar”, disse Diangeles, aluno da escola.
Já a opinião dos professores é que os alunos com deficiência têm muita dificuldade de aprender. A professora de História, Núbia, disse que às vezes tem que repetir os conteúdos das aulas e isso atrasa outros alunos, relatou.
Criatividade em sala de aula
Visitamos também a Escola Estadual Padre João Barbosa, do Morro da Conceição, que atende a cerca de 900 alunos. Nesta região, houve uma pesquisa na comunidade para saber quantas crianças, adolescentes e jovens estavam fora da escola. Descobriram um número expressivo de crianças e adolescentes com necessidades especiais, que não tinham oportunidade de freqüentar a escola. Foi então que a escola sentiu a necessidade de abrir as portas para esse publico.
Atualmente, há uma sala especial que atende a 10 alunos de 9 a 19 anos da própria comunidade, com várias deficiências como: deficiência mental, visual e auditiva e dificuldade de coordenação motora. A escola tem uma professora específica para ensinar a esses alunos.
A cada dois meses, essa e outras professoras que trabalham com alunos com deficiência recebem capacitação do Estado. Eles aprendem a utilizar os novos materiais que chegam para os alunos, com conteúdos pedagógicos e metodológicos das aulas. “A cada ano, nas capacitações surgem novas idéias, novos materiais didáticos. Somos capacitados para saber como utilizar esses materiais e usar novas metodologias”, disse Alcione Malta, professora da sala especial.
Os livros didáticos cedidos todo o ano para os alunos vêm do governo federal. A professora utiliza os materiais fornecidos usando métodos criativos, como música e programa de TVs. “Tudo isso faz com que os alunos prestem atenção no que está sendo transmitido na sala de aula, até por que eles não gostam de coisas repetitivas. A gente tem que sempre trazer algo de novo para eles”, completa Alcione.
Ela também trabalha muito o psicológico dos alunos, estimulando o lado cognitivo, relativo ao processo mental de percepção, memória e/ou raciocínio.
Quanto ao espaço físico, este precisa melhorar. A escola não tem rampas de acessos para os deficientes físicos se locomoverem para outras dependências da escola e a cantina e os banheiros são inadequados. Isso é um problema gravíssimo, pois os alunos ficam muito limitados a sua sala de aula.
Conquistando espaços
Conhecemos ainda o CERVAC (Centro de Realização e Valorização da Criança), que surgiu de uma pesquisa idealizada por três jovens também residentes no Morro da Conceição. O resultado da pesquisa indicou um grande número de pessoas com deficiência isoladas em suas próprias famílias. Isso os impulsionou a mobilizar a comunidade para lutar pela causa da inclusão. Finalmente, em junho de 1988, o Centro de Reabilitação abriu suas portas.
O CERVAC tem como missão valorizar as pessoas com deficiência, possibilitando seu desenvolvimento físico e mental. Ele atua nas áreas de prevenção, sensibilização e reabilitação, favorecendo a inclusão social através da participação ativa na efetivação de políticas públicas que garantam melhor qualidade de vida.
O Centro estimula a participação da pessoa com deficiência em atividades escolares ou extra–escolares. Promove também as relações sociais em atividade de lazer, esporte, arte e cultura, lembrando sempre de não tratar o deficiente como doente, respeitando e escutando a pessoa com deficiência, evitando a super proteção. A pessoa com deficiência deve fazer sozinha tudo o que souber.


