| 13 Fevereiro 2009
Juventude se encontra para recriar a América Latina
Desmistificar falsas impressões dos países que compõe a América Latina foi uma das funções do III Recreando América Latina, um encontro promovido pela Avina para reunir os jovens das instituições que ela apóia, com o objetivo de pensar ações para a integração da juventude na América Latina. O encontro está em sua terceira edição. O primeiro aconteceu no Chile, o segundo no Equador e este terceiro e último aconteceu de 21 a 31 de janeiro, no Peru. Por ser o último, desse ciclo, o formato do encontro foi pensado para reunir alguns dos jovens que participaram do primeiro e do segundo encontro com novos participantes. Dessa forma, a idéia era pensar em ações mais concretas.
Este seria supostamente o último encontro, onde jovens que, assim como eu, participaram de um dos dois encontros teriam a oportunidade de se reencontrar e de conhecer novos ativistas para pensar a América Latina, suas semelhanças, distorções, mitos, problemas. Foi o momento de pensar em ações mais diretas e pôr em pratica o que foi arquitetado ao longo desses três anos, algo mais direto, como prazos, público alvo, foco, demandas e desdobramentos. Há dois anos eu estava participando do primeiro Recreando América Latina, me recordo da despedida, 40 jovens de países distintos que durante dez dias haviam convivido juntos, para uns tchau, para outros adeuses, isso o tempo iria definir. E agora me vejo na terceira edição do encontro, reencontrando pessoas e conhecendo novas. Essa sensação de descoberta do outro se deu, especialmente, a partir da convivência.
Quebrando mitos - Esse encontro teve esse caráter, desmistificar, unir, reconstruir, criar nossas perspectivas sobre os países que compõe a América Latina. Estava no quarto um argentino e um boliviano e conversamos sobre nossas atuações, quando Maurício o boliviano me mostrou um jornal que ele fez junto a outros jovens. Eu estranhei porque na capa havia muitas mulheres brancas, me questionei. Porque a televisão me ensinou que na Bolívia só havia remanescentes indígenas, de cabelos bem pretos e pele avermelhada.
Começamos a conversar sobre quais são os mitos sobre esses três países. Perguntei a Sebastian como ele, argentino, via o Brasil: “Os brasileiros são afro-americanos ou são caucasianos, são alegres demais. Se vão fazer compras vão sorrindo, se estão trabalhando estão sorrindo, se batem o carro, saltam dele sorrindo”. Após essa fala demos uma boa gargalhada. Eu falei para ele o que se passa na real, mas não deixei de falar também do que pensamos sobre os argentinos. Contei que por conta da rivalidade do futebol, aprendemos que eles nos odeiam e que os brasileiros ao andar à noite por lá são abordados.
O caminho - Foram doze horas de estrada conturbada até chegar ao local onde aconteceu o encontro. O espaço escolhido foi Konchucos Tambo, um hotel no interior do Peru, em uma cidade chamada São Marcos, habitada por remanescentes de incas. A escolha do local foi bem pensada: para recriar a América Latina, nada do melhor do que estar em contato com a natureza e com a história de antigas civilizações.
Ao chegar ao hotel, fomos recebidos por um frio de ranger os dentes e, em seguida, direcionados para os quartos separados dinamicamente para promover uma maior integração: ou seja, dividíamos o quarto com jovens de outros países e de encontros diferentes. No meu caso, havia uma garota da Bolívia e uma paraguaia que havia participado do segundo encontro. O primeiro momento é de reconhecimento: o clima, as pessoas e a comida exótica. Instante onde os primeiros laços são criados.
A primeira atividade foi uma rodada de apresentações, onde falamos quem somos, país de origem, o que fazemos. Cada pessoa levou um objeto, foto ou texto que representasse seu povo e, a partir disso, falar de si, suas perspectivas, ações e etc. Como estávamos num local sagrado com uma forte energia, fizemos um tipo de ritual para pedir licença e permissão para trabalhar naquela terra.
A diversidade foi um marco desse encontro, havia jovens de aspectos totalmente diferentes, em sua maioria indígenas e brancos. Os negros compunham uma minoria de três, sendo dois do Brasil. Apesar de ter um elo de ligação que era o idioma, as diferenças eram latentes: a forma de falar, a estética, a forma de vestir e se comportar.
Ritual - “Um líder precisa aprender a cuidar do seu corpo” foi com essa frase que a jovem Ananda deu início ao primeiro dia de atividade. Ela mais três jovens Ireni, Gladis e Tatiana ficaram responsáveis por fazer a abertura com um trabalho corporal. Como nas outras vezes, o encontro teve um aspecto espiritual, voltado para a conexão com a terra com a cultura local, com a natureza. Dessa vez, o tema foi o cuidado com o corpo e a concepção de quer o líder tem que liderar além dos espaços em que atua. Para isso, foi trabalhado Yoga, meditação e ativação do Chakras.
O jovem Ivan, da Bolívia, percebeu a falta de tempo de escuta de seu próprio corpo “Comecei tenso. O que devo fazer é ter confiança, pois foi nessa atividade que nos sentimos livres” explica. Já para o peruano Mário, “Se vamos recrear a América Latina, temos que aprender a confiar uns nos outros”. Na segunda noite, fizemos uma comissão ficou responsável por organizar uma Feira das Organizações, com os materiais das instituições que fazemos partes, esse foi um momento de estreitar os laços, de conhecer os projetos e ações que desenvolvemos em nossos países e estados.
A música em várias tradições é um elo e nesse encontro não foi diferente, finalizamos a atividade com muita música, o interessante foi a mistura de ritmos, danças e estilos isso foi o que faltava para fechar o ciclo de integração. Outro momento marcante do encontro foi ida para o Parque Nacional de Huascaran - um complexo ecológico, composto por ruínas, mas para adentrar nesse espaço nos fizemos um ritual na noite anterior.. Foi um grande desafio, pois o fato de estarmos a 3.600m de altura tornou a subida mais difícil ainda, o pouco oxigênio, a chuva e o frio eram empecilho. Para quem conseguiu completar a trilha um presente: o rio que nos acompanhava, ao final tinha o formato do mapa da América Latina. Na volta nos reunimos em tipo de ruínas de um antigo templo Inca, onde fizemos um ritual com os quatro elementos, também regado a muita música instrumental.
Realidade - Devido ao nosso amadurecimento esse encontro teve um caráter mais participativo, em alguns aspectos administramos as atividades, um exemplo disso foi a visita aos jovens locais. Esse talvez tenha sido o momento de mais impacto do encontro, porque a realidade de miserabilidade em que vivem os jovens e as crianças chocava. Questões como insalubridade, contaminação pela água, condições de subemprego, falta de acesso a direitos básicos: “Tem que ter dinheiro para estudar, só é possível estudar em Huraz ou Lima, e pra isso tem que pegar transporte” explicou Romário, 19, jovem morador que faz parte da instituição.
Os instantes finais foram dedicados a pensar ações futuras e iniciativas para recriar a América Latina. Percebemos nosso desenvolvimento, nossa autonomia. De lá, saíram propostas como o recreando local e regional, além da idéia de encontros com países fronteiriços. Também se pensou em criar uma marca, juntamente com partilha de ações entre as instituições.


