Publicada em: 10/03/2008
Núcleo do Mato Grosso do Sul estimula discussão sobre realidade e direitos dos jovens do meio rural.
Por: Juliana Borges, Fabiana Leal, Camila Abelha, Jucy Lopes e Gislaine (Mato Grosso do Sul).

 

O I Seminário da Juventude Rural de Terenos aconteceu no dia 05 de agosto, em assentamentos de Terenos, município de Mato Grosso do Sul. O evento foi organizado pelo núcleo local da Rede Sou de Atitude, que aproveitou a ocasião para disseminar o monitoramento e fortalecer a Rede com a conquista de novos participantes. Estiverem presentes a juventude local, além de representantes de assentamentos, escolas, bairros e autoridades municipais e estaduais, que se reuniram para discutir a realidade rural nas áreas de protagonismo e educação, trabalho, saúde, esporte e lazer, gênero e sexualidade. Além de levantar problemas e necessidades, o grupo apontou algumas propostas para uma melhor qualidade de vida no campo, que serão enviadas para órgãos municipais e estaduais.

 

A mesa de abertura contou com a representação de vários setores da sociedade. Entre elas, os vereadores Gerson Terra, Neto e Ubirajara; Conselheiros Tutelares; o assessor do deputado Antônio Carlos Biff, professores e diretores de escolas, presidentes de diversos assentamentos, associações de moradores, representante da FAF (Federação da Agricultura Familiar) e um juiz. O evento contou também com a presença do Prefeito de Terenos, Humberto Rezende Pereira.

 

O prefeito destacou a importância de alcançar uma melhor qualidade de vida para a comunidade e para a juventude local, além da necessidade destes jovens pensarem em construir suas vidas ali mesmo. Para fazer um diagnóstico da realidade de cada assentamento e elaborar propostas, o público presente foi organizado em grupos de acordo com os seguintes temas: Protagonismo e Educação, Trabalho, Saúde, Esporte e Lazer, Gênero e Sexualidade.

Novos participantes para a Rede

 

Os adolescentes e jovens presentes no Seminário escolheram quem seriam os participantes da Rede Sou de Atitude, ou seja, aqueles que fariam as articulações e o monitoramento nos assentamentos e estarão em contato direto e freqüente com os articuladores estaduais. Abaixo, listamos o nome dos assentamentos e dos novos jovens da Rede, em cada um deles.

 

Nova Querência: Ana Cláudia de Jesus Silva e Isadora Valentim de Paula.

Patagônia: Cristiane Cunha Souza e Lidiane Patrícia de Oliveira Pozzan

Paraíso: Antônio Sobrinho Guedes e Dayana de Souza Miranda

Dois Irmãos do Buriti: Anderson Ribeiro

Terenos: Rodinei Teixeira Chaves e André Luís do Carmo Correia

Pontalzinho: Rogério Correia e Tomas Wellington Cuarelli do Amaral

 

Protagonismo e Educação

 

ANÁLISE DA REALIDADE:

Os adolescentes e jovens destacaram que há uma grande dificuldade quanto ao Ensino Médio no meio rural, pois o mesmo só é oferecido no período noturno. Ainda reclamaram que os alunos não têm espaço adequado para as aulas de educação física prática e que as escolas não oferecem livros didáticos para todos os alunos, dificultando o processo de aprendizado e prejudicando a avaliação dos mesmos.

 

Observaram também a insuficiência dos uniformes, a falta de cursinho pré-vestibular, o acesso defasado às aulas de informática e as condições inadequadas de transporte escolar, destacando a falta de segurança que isto proporciona.

 

PROPOSTAS:

• Ensino Médio nos períodos diurno e noturno;

• Construção de quadras de esportes nas escolas dos assentamentos;

• Distribuição de material didático para todos os alunos;

• Aumento e melhoria do transporte escolar, para que ofereçam maior segurança.

Trabalho

 

ANÁLISE DA REALIDADE:

O grupo observou a falta de financiamento para a aquisição de materiais importantes para a realidade do meio rural, como maquinários, adubos e sementes. Destacaram a falta de pavimentação das ruas, o que dificulta o transporte de produtos, a falta de desenvolvimento do comércio local como gerador de emprego e renda, de ensino profissionalizante voltado para a realidade rural, bem como cursos de artesanato. Pontuaram, também, a inacessibilidade às Escolas Família Agrícola, onde o adolescente e o jovem aprendem sobre o manejo e cultivo da terra, hortaliças, e são preparados para trabalhar em suas comunidades; e também aos programas/projetos de 1º Emprego do governo.

 

PROPOSTAS:

• Financiamento para a compra de adubos orgânicos e sementes;

• Criação de Escola Família Agrícola para preparar os adolescentes e jovens para trabalhar com a terra;

• Implantação e implementação de cursos profissionalizantes;

• Investir no desenvolvimento do comércio local para a geração de trabalho e renda.

 

Saúde

 

ANÁLISE DA REALIDADE:

Em um primeiro momento, o grupo recebeu o Secretário Municipal de Saúde que falou sobre a saúde em geral e depois pontuou sobre a realidade local. O Secretário disse, por exemplo, que em Terenos a população pode usufruir de serviços de dentistas três vezes por semana. O que provocou discordância por parte de alguns adolescentes que disseram que isto não ocorre. Segundo eles, os dentistas comparecem ao município apenas esporadicamente e a população não é avisada sobre os dias de atendimento.

 

O Secretário afirmou ainda que são desenvolvidas palestras sobre DST/AIDS nas escolas. Mais uma vez, os adolescentes deram um passo à frente e disseram que isso ocorria sim, mas no passado. E que os assuntos não eram trabalhados com ambos os sexos no mesmo local.

 

Os participantes do grupo disseram que há em Terenos um posto de saúde com médico ginecologista, clínico geral, pediatra, ortopedista, fisioterapeuta e dentista, além de um assistente social e uma farmácia. Os atendimentos são de urgência, tendo até micro-cirurgias. Porém, os partos são realizados apenas em Campo Grande.

 

Sobre o saneamento básico, os mesmos afirmaram que a água que é utilizada vem de um poço e é armazenada em uma caixa d’água por onde é realizada a distribuição para as casas. Porém, nas residências que se situam em regiões muito altas, a água não chega e, além disso, quando chega, tem sujeira.

 

PROPOSTAS:

• Construção de um posto de saúde 24h no assentamento central (Patagônia) e aquisição de uma ambulância;

• Distribuição de preservativos masculinos e femininos;

• Palestras ou oficinas nas escolas locais;

• Investimento no saneamento básico.

 

Esporte e Lazer

ANÁLISE DA REALIDADE:

Os participantes disseram que não existem quadras para a prática de esportes e lazer, bem como projetos que incentivem estas atividades e a cultura. Além disso, também observaram a falta de computadores com acesso à Internet.

 

PROPOSTAS:

• Construção de quadras de esporte nos assentamentos e organização de projetos de passeios turísticos para todos os assentamentos de Terenos;

• O conserto e manutenção dos refletores da quadra de esportes existente;

• Promoção de projetos que desenvolvam e incentivem o esporte, o lazer e a cultura em todas as escolas dos assentamentos;

• Apoio para a formação de grupos de fanfarras nos assentamentos.

Gênero e Sexualidade

ANÁLISE DA REALIDADE:

O grupo de Gênero e Sexualidade apontou que homens e mulheres vão para a roça trabalhar. Mas quando ambos chegam em casa, começa outra jornada de trabalho apenas para as mulheres, pois os homens não contribuem nos afazeres domésticos.

 

Outro problema que afeta os assentamentos é o alcoolismo. Os adolescentes relataram que quando os homens bebem chegam em casa violentos e agridem suas esposas, que permanecem caladas devido ao medo que sentem.

 

A questão da discriminação também é visível com relação à sexualidade das meninas. Quando a família descobre que elas não são mais virgens, os pais as colocam de castigo ou até as expulsam de casa. E se chegam em casa grávidas, a família não oferece a assistência necessária para as adolescentes e/ou jovens por conta de valores e preconceitos, o que acaba prejudicando a gestação.

 

Além disso, as meninas também discriminam os meninos. Quando o assunto é paquera e eles dizem não, elas duvidam de sua heterossexualidade, o que provoca certos constrangimentos.

 

PROPOSTAS:

• Educação Sexual Multidisciplinar sobre gênero e sexualidade nas escolas, contemplando pais e alunos;

• Distribuição de contraceptivos de emergência, para caso de violência sexual;

• Contratação de mais médicos especializados na saúde da mulher;

• Atendimento especializado para mulheres nas delegacias de polícia civil e militar.